07 Setembro, 2005

"Uma Canção de Amor para Bobby Long"

A Love Song for Bobby Long, de Shainee Gabel
Estados Unidos, 2004


por Café

Sabe quando você chega numa festa de família ou seus pais encontram um grande amigo e alguém pergunta: “Você se lembra de mim? Eu te carreguei no colo e...” Eu acho isso muito chato, geralmente digo logo que não me lembro (ou ele queria que eu me lembrasse de coisas fúteis aos meus dois anos de idade?).

É assim que se sente Pursy (Scarlet Johansson), uma jovem que volta à Nova Orleans, cidade onde passou a infância, para receber a casa que foi deixada como herança após a morte de sua mãe. O inusitado é que ela terá que dividí-la com dois amigos da falecida, Bobby Long (John Travolta) e Lawson Pines (Gabriel Macht). Para Pursy, a casa é um ambiente claustrofóbico, sufocante com seu calor e umidade. Esse desconforto origina-se na angustiante busca em reconstruir suas memórias. Através apenas de relatos de amigos, estas lembranças vão situando-a neste seu recomeço de vida.

A cidade de Nova Orleans assume um papel fundamental no desenvolvimento narrativo e na caracterização dos personagens em Uma Canção de Amor para Bobby Long. Repleta de sincretismo religioso, a cidade é um lugar onde o passado parece teimar em reivindicar o seu lugar. Berço também da melhor música estadunidense, possui um carnaval muito animado - Mardi Gras - e uma das mais ricas gastronomias do país. Nova Orleans ainda preserva uma grande tradição oral, onde todos parecem ter uma história para contar, cuja veracidade é o que menos importa.

A diretora Shainee Gabel, nascida na cidade, faz do protagonista Bobby Long um personagem-síntese do espírito da cidade. Bobby Long é um cara que tem o romantismo quase como doença e passa seus dias embriagado, recitando poemas na companhia de Lawson Pines, seu fiel discípulo, paz quebrada com a chegada de Pursy. Tal qual a cidade, Bobby Long parece carregar consigo uma beleza decadente, uma espécie de culto ao passado.

O trabalho de Shainee Gabel na sua estréia em ficção fez Travolta compará-la a Tarantino na capacidade e lucidez enquanto roteirista/diretora. A cena que se passa num bonde esbanja naturalidade e é típica de um filme que se desenvolve em locações, contrariando a lógica hollywoodiana de filmar em estúdios.

A fotografia de Elliot Davis (Irresistível Paixão) mistura colorido e sombras, e acentua o choque do velho e novo presente no filme. Os atores também são conduzidos a grandes performances. O trio pricipal tem uma sintonia verossímil e acaba influindo positivamente no resultado final do filme.

1 comentários:

Bill Murray disse...

A Scarlet Johansson é uma lindinha mesmo, não é à toa que não deixo ninguém ouvir o que falo em seu ouvido no filme que fizemos.
Pena que depois do Katrina não vai dar pra fazer tão cedo outro filme desse em New Orleans...