"O Jardineiro Fiel"
The Constant Gardener, de Fernando Meirelles
Inglaterra, 2005
por Café
O mundo das agências de propaganda é cheio de historinhas. Era uma vez mais uma festa de premiação dos melhores daquele ano. Um certo profissional, fora do mercado há pelo menos dois anos, mesmo assim foi escolhido O Publicitário do Ano, tal sua força e presença no mercado. O nome dele era Fernando Meirelles.
Meirelles tem sua trajetória fora da publicidade marcada por dirigir episódios do Telecurso 2000 e tentativas discretas no meio cinematográfico, como Domésticas. Mas com Cidade de Deus, Meirelles aparecia ao mesmo tempo para o Brasil (pois pouca gente o conhecia) e para o mundo, o resto é História (e não historinha)...
Logo, sua migração para o mercado internacional era um passo lógico, ainda mais após as 4 indicações ao Oscar (incluindo Melhor Diretor). Centenas de projetos lhe foram oferecidos, tendo inclusive começado a dirigir Colateral, ainda com Russell Crowe como protagonista. Ele estava inclinado a começar um projeto pessoal quando apareceu a oportunidade de dirigir O Jardineiro Fiel.
Baseado no best-seller de John Le Carré (que na verdade se chama David Cornwell), O Jardineiro Fiel nos mostra o casal Quayle vivendo no Quênia. Justin (Ralph Fiennes, de Spider) é um alto diplomata britânico, figura quase decorativa. Ele passa mais tempo cuidando de seus jardins do que influindo nas decisões globais. Tessa (Rachel Weisz, de Constantine) é uma jovem advogada engajada e que vê na mudança para Nairóbi uma possibilidade de aumentar sua militância.
A atuação de Fiennes e Weisz é a harmonia que domina o filme. Fiennes principalmente - como na cena do necrotério, onde faz uma atuação minimalista, que mais diz com o silêncio do que poderia com mil frases. A cena na qual ele descobre um vídeo íntimo gravado pela sua esposa é de arrebatar até os corações mais insensíveis. Todas as cenas que possuem um ponto de vista de algum personagem foram gravadas pelos próprios atores, numa liberdade não habitual em Hollywood (Meirelles insiste que não é um filme americano, nem no sentido de financiamento, nem de mentalidade de produção). Destacam-se ainda no elenco Danny Hustoun (filho de John Huston), Bill Nighy (de Simplesmente Amor) e Pete Postlethwaite (de Em Nome do Pai) numa participação pequena, porém marcante.
Meirelles afirma que o livro tem uma visão muito colonialista do continente africano. Pois a África não é retratada de forma tão digna desde ABC África, de Abbas Kiarostami. A câmera nunca parece querer nos mostrar aquela beleza que nos envergonha, a beleza da miséria. O termo “estética da fome” foi usado pejorativamente à época de Cidade de Deus e para nossa sorte esquecido nos dias atuais. Meirelles junto com seu diretor de fotografia brasileiro César Charlone (o mesmo de Cidade de Deus, segundo Meirelles co-diretor do filme) nos mostram uma África um pouco diferente daquela que a mídia nos mostra.
A favela de Kibera, a maior do Quênia, faz do barro das paredes dos seus barracos e da terra batida no chão um único tom, monocromático, apenas aliviado pelo azul insistente do céu. Os planos alcançados por Charlone parecem tirados de uma pintura expressionista e expressam (redundante mesmo!) fielmente a textura da trama.
Fernando Meirelles afirma que “cinema é arte, mas é indústria também. O dia que eu quiser expressar livre e integralmente minha subjetividade basta escrever um poema, fazer uma aquarela, algo sim. É como funciona. Faço isso sem problemas”. Assume assim um lugar respeitável dentre os cineastas brasileiros, fato difícil num país onde todos parecem órfãos do “jeito Glauber de fazer cinema”.
Com uma clara influência de 21 Gramas (um dos "filmes de cabeceira" de Meirelles durante as filmagens), principalmente com relação ao valor da vida, O Jardineiro Fiel é um filme sobre o amor. Amor entre duas pessoas, amor à vida de outras pessoas. Amor a um continente que teimamos em negligenciar.
Saladearte - Cine XIV
18h35
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