16 Outubro, 2005

"O Senhor das Armas"

Lord of War, de Andrew Niccol
Estados Unidos, 2005



por Café

Outubro é mês de plebiscito sobre a não-proibição da não-comercialização de armas de fogo e é uma feliz coincidência (será que realmente foi coincidência?) a chegada de Senhor das Armas aos cinemas.

Na cena inicial, vemos a trajetória de vida de uma bala. Ao som de For What It's Worth, de Buffalo Springfield, a cena se inicia na linha de produção em algum lugar da ex-União Soviética, passa por portos sob o comando de traficantes até servir de munição ao fuzil em alguma guerra civil africana e acabar na cabeça de uma criança. Esta cena inicial já prepara o espectador para o que o filme propõe: uma reflexão sobre o mundo dos traficantes de armas.

Yuri Orlov é o Sr. da Guerra do título original. Ele é um imigrante russo que se muda ainda pequeno para os Estados Unidos disfarçado de judeu. Ele vive em Odessa, região de Nova York onde está concentrada boa parte da máfia russa em solo americano. Logo ele percebe que poderia lucrar muito com o comércio ilegal de armas e o que era um simples negócio em breve o tornará um dos maiores traficantes de armas do planeta.

Aproveitando-se do esfacelamento das repúblicas soviéticas, ele suborna um oficial ucraniano (seu tio, aliás) que passa a municiá-lo com enormes quantidades a preços irrisórios, o sonho de qualquer empreendedor. Yuri passa a influenciar decisivamente nos conflitos mundiais, destacadamente na África.

O roteiro e a direção de O Senhor das Armas são de Andrew Niccol e prendem o espectador pela variedade de situações e pela forma quase fantasiosa como é contada a história. A cena que o presidente da Libéria, o principal cliente de Orlov, culpa a MTV pela má educação dos jovens traz sarcasmo e ironia numa fala quase despretensiosa, comprovando que Niccol não perdeu a mão desde seu excelente rotreiro de O Show de Truman (acredito piamente que quando dirigiu Simone ele estava sob medicação pesada).

A atuação de Nicolas Cage (de Os Vigaristas) beira o perfeito. Seu Orlov é um sujeito crível, quase um sujeito comum. Ele é um bom pai, marido e irmão. Ele bem que poderia ser seu vizinho. Por trás dessa aparente inocência, esconde-se um sujeito que covardemente influi negativamente na vida de milhões de pessoas no mundo. Ethan Hawke (de Antes do Pôr-do-Sol) mais uma vez confirma seu talento na pele de um agente da Interpol que vive perseguindo Orlov. A surpresa fica por conta de Eamonn Walker como o presidente liberiano André Baptiste, responsável pelos melhores momentos do filme. O ponto baixo é Jared Leto (de Réquiem para um Sonho) interpretando o irmão do protagonista num papel dispensável.

O Senhor das Armas mantém um ritmo interessante até o momento “marrom-marrom” (quem assistir saberá). A partir daí o filme perde totalmente seu ritmo e discurso, passando a não convencer. No último ato, entretanto, o filme volta a mostrar a que veio, mas parece que as notas que aparecem ao fim da projeção (e que são de suma importância) bem que poderiam estar no roteiro de forma mais contundente.

A trilha sonora me pareceu muito óbvia. Young Americans, de David Bowie, para mostrar Yuri e o irmão (apesar de serem russos) fazendo sucesso, Money (That's What I Want), de Flying Lizards, quando os protagonistas começam a ganhar dinheiro e Cocaine, de Eric Clapton, quando cheiram cocaína não me parecem um exercício de criatividade. A bela Hallelujah na voz de Jeff Buckley também aparece num momento totalmente impróprio.

Baseado na biografia de cinco traficantes de armas, Yuri Orlov é a personificação da falta de escrúpulos e princípios não só destes traficantes, mas sim de todos que de alguma forma lucram com a exploração de outras pessoas. Talvez por isso nenhum estúdio americano tenha financiado o filme. Assim como em O Jardineiro Fiel, fica claro que não há limites para cada um prosperar em seus negócios. As vidas custam pouco, são descartáveis. E ainda podemos fazer uma mea culpa como o protagonista e dizermos que não somos nós quem puxa o gatilho.

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