06 Outubro, 2005

"Quatro Irmãos"

Four Brothers, de John Singleton
Estados Unidos, 2005



por João Vítor e Café

Minha infância foi à base de feijão e muitos filmes de ação. Dentre os vários filmes memoráveis - Comando Para Matar, Rambo, Robocop -, um se destacava: o James Bond de Sean Connery. O cara era o ideal de herói de ação: arrebentava os vilões, traçava todas as mulheres e não tava nem aí pra nada e nem pra ninguém. Pois o mesmo personagem que usava mulher como escudo humano (na época de Connery), já nos anos 90, acredite se puder, hesitava em matar uma vilã só por ter ido para a cama com ela (isto já com o Brosnan). Neste momento, a série se tornou síntese da decadência do cinema de ação. Sua causa? O politicamente correto, fato gerador dos heróis da década passada, seres sensíveis que matam apenas para salvar a própria vida e não falam palavrão, ou seja, umas bichinhas. É justamente por nadar contra essa maré de conservadorismo que Quatro Irmãos é tão bom.

Refilmagem de Os Filhos de Katie Elder, Quatro Irmãos conta a história de (adivinhem?) quatro irmãos adotados (2 negros e 2 brancos) que se reúnem para investigar e, obviamente, vingar a morte mal-explicada da mãe adotiva. Os irmãos foram rejeitados por um sistema informal de adoções por nunca terem sido exemplos de bom comportamento (nos créditos finais aparecem as “performances” de cada um), fazendo com que a bondosa senhora Mercer os adotasse. Mesmo com heróis(?) tão dúbios, em nenhum momento a empatia da platéia com os personagens é afetada. Mark Wahlberg (de Huckabees), Tyrese Gibson (de + Velozes, + Furiosos), André Benjamin (de Be Cool) e Garrett Hedlund (de Tudo Pela Vitória) fazem qualquer um acreditar que aquela é uma família de verdade.

Eterna promessa desde que Os Donos da Rua surpreendeu o mundo com sua linguagem direta e uma estética crua ao mostrar a violência, John Singleton havia se tornado um diretor mediano. Seus filmes, como Massacre de Rosewood e Shaft, davam a impressão de que seriam muito melhores com outro no comando. Quatro Irmãos é mais um exemplo da visão muito particular sobre justiça do diretor John Singleton (neguinho tem que resolver as coisas é na bala, a polícia não serve pra nada e Charles Bronson deveria ser Ministro da Justiça). Neste filme, porém, ele supera todas as expectativas. Mostrando coragem, Singleton gasta uns vinte minutos no começo do filme só para vermos a interação entre os personagens. São cenas em que nada de importante acontece, mas que se torna crucial para que torçamos pelos irmãos em seguida. Porque quando eles começam a investigação...

O grande mérito do roteiro de Paul Lovett e David Elliot é compreender perfeitamente seus personagens. Ali não estão policiais interessados em fazer justiça. O que eles buscam é pura e simplesmente vingança. Soma-se a isso o passado violento de todos eles e o fato de que, convenhamos, mataram a mãe dos caras! Prepare-se então para uma enxurrada de torturas, tapas, execuções e o “escambáu”, com destaque para quando eles vão interrogar uma testemunha. Surpreendentemente, são dessas cenas que surgem momentos hilários, frutos da falta de clemência e total desrespeito pelas leis demonstradas pelos irmãos, em especial o irmão mais velho Bobby (Mark Whalberg, cada vez melhor em suas atuações). E heróis tão fortes necessitam de antagonistas mais fortes ainda. E Quatro Irmãos também não decepciona neste quesito. Victor Sweet (Chiwetel Ejiofhor, de Melinda e Melinda) já é candidato ao prêmio de Melhor Vilão do Ano do MTV Movie Awards. Um cara cruel e que não poupa nem seus capangas. Um cara mau porque... é mau. Ele tem um figurino que remete imediatamente aos filmes black dos anos 70 (referência constante no filme, seja pelos closes característicos da época, seja pelo “espírito” da história).

As cenas nas quais os irmãos relembram da mãe mostram o desconforto do diretor em filmar cenas mais sensíveis e, juntamente com uma pequena queda de ritmo após o espetacular tiroteio que fecha o segundo ato, mostram que o filme não é perfeito. Contudo, Quatro Irmãos tem qualidades suficientes para ser considerado o melhor filme-pipoca do ano até agora com um corpo de vantagem (e um dos mais lucrativos, já tendo arrecado mais de duas vezes seu orçamento). Mesmo que atualmente James Bond fique chocado com tanta violência.

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