30 Julho, 2005

"Irresistível Paixão"

Out of Sight, de Steven Soderbergh
(EUA, 1998)


por Café

Steven Soderbergh ainda era um diretor cult procurando seu lugar em Hollywood quando dirigiu Irresistível Paixão. Após o estrondo de sexo, mentiras e videotape no Festival de Cannes em 89, o diretor insistia numa carreira autoral marcada por filmes inexpressivos como Inventor de Ilusões e Kafka. Porém em 98 o jogo mudaria. Ele percebeu que poderia desenvolver projetos para os estúdios, sem com isso perder a chance de realizar filmes acima da média. Além disso, percebeu que estes mesmos projetos poderiam financiar seus filmes autorais (ou você acha que algum executivo de Hollywood financiaria Full Frontal?).

Baseado num livro de Elmore Leonard (Nome do Jogo e Jackie Brown), Irresistível Paixão nos mostra o relacionamento entre o exímio assaltante de bancos Jack Foley (George Clooney) e a agente federal Karen Sisco (Jennifer Lopez). Eles se conhecem num porta-malas de um carro, após ele fugir de uma prisão e levá-la como refém. Apesar do inusitado da situação, a conversa se dá num clima de casualidade e sensualidade que irá nortear a busca dos personagens um pelo outro ao longo da trama. A personagem de Lopez é uma clara homenagem à série de TV The Cisco Kid.

A direção dos atores é um dos méritos do filme. Mesmo antes de fazer Julia Roberts digna de um Oscar, ele leva George Clooney (ainda de ressaca de Batman e Robin) ao timing perfeito de um galã com refinado senso de humor, papel aliás que o próprio Clooney não se envergonha de repetir. Já Jennifer Lopez alcança uma performance convincente, a última antes de filmes desprezíveis como Olhar de Anjo.

Além disso, todo seu elenco - que conta inclusive com pequenos papéis de Samuel L. Jackson e Michael Keaton - funciona sem distorções, facilitados pelo roteiro enxuto de Scott Frank (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado). Em uma cena, o personagem de Don Cheadle relata: "Um dos meus capangas foi procurar por Glenn no banheiro, mas voltou abanando a cabeça". Essas sutilezas causam a impressão de que cada ator "veste" na medida certa o seu personagem.

Soderbergh antecipa neste filme muitas das suar marcas que ficariam evidentes nos seus maiores sucessos. A fotografia estourada para diferenciar os ambientes, a elegância do silêncio como algo instigante e ao mesmo tempo revelador e o tom quase explícito de camaradagem das filmagens são explícitos pela primeira vez aqui.

Como destaque e resumo disso, a sensacional cena em que Clooney e Lopez se encontram num hall de hotel. A montagem indicada ao Oscar de Anne V. Coates funciona para antecipar aquilo que julgamos inevitável, sem estragar, entretanto, a sedução da cena. Outro ponto forte são algumas cenas nas quais a imagem se congela num frame, como se Soderbergh tentasse extender seus momentos favoritos ao máximo.

Não sei porque me lembro perfeitamente do trailer deste filme e o quanto ele não me agradou. Parecia mais uma comédia romântica forçada e me recusei durante um bom tempo a vê-lo, apesar de Sodebergh. Hoje, o arrependimento de não tê-lo visto nos cinemas só não é maior do que a satisfação de revê-lo em DVD.

29 Julho, 2005

"Se Brincar o Bicho Morde"

The Sandlot, de David M. Evans
(EUA, 1993)


por Café

Talvez, se eu não estivesse com insônia, nem parasse para assistir a Se Brincar o Bicho Morde. Talvez tenha influenciado o fato de o filme falar sobre beisebol, esporte tão rejeitado por aqui e que eu aprendo cada vez mais a admirar. Ou talvez tenha sido por falar de uma turma de garotos e se passar na década de 60. Filmes sobre jovens dos anos 60 costumam cativar facilmente, seja pela caprichada trilha sonora ou pelo clima aparente de felicidade de uma época nostálgica.

O filme trata de um verão mágico na infância de uma turma de garotos. Após a chegada do 9º componente da turma, finalmente o time de beisebol está completo. Além de se divertirem num campinho improvisado num terreno baldio, eles usufruem a inocência e inconseqüência típica da idade, exemplificado na simples felicidade de poder jogar á noite no 4 de Julho, quando o campo está iluminado pelos fogos de artifício. A cena em que um deles simula um afogamento para receber uma respiração boca-a-boca da bela salva-vidas nos remete às táticas usadas ou apenas planejadas para fazermo-nos notar pelas musas da nossa infância.

É verdade que boa parte da trama não tem muitos atrativos. A amizade dos garotos se resume a seu próprio grupo. Não há um interesse maior por vizinhas, e as rixas com garotos vizinhos se resumem a um jogo onde o adversário é facilmente derrotado. Contudo, este cotidiano só faz crescer a amizade do grupo e mostrar que desde cedo aquele verão será único.

A situação muda quando uma bola vai parar no quintal da casa vizinha ao campo. O problema é que a bola é autografada por Bambino, o maior jogador de todos os tempos, e foi indevidamente tirada da coleção do padrasto de um deles. Além disso, no quintal da casa há uma fera que segundo se conta, teria devorado um menino por inteiro. As cenas com a suposta fera são muito bem feitas e acaba por determinar o futuro no esporte de um deles.

Filmes como este, singelos na sua proposta, talvez nos seja especial pelo fato de lembrar-nos dos nossos momentos inesquecíveis. Aqueles que se contados hoje parecem tolos e desinteressates, mas que guardam uma parte importante de cada um de nós.

Como curiosidade, a presença na direção de fotografia de Anthony B. Richmond, renomado cinegrafista, cujos trabalhos anteriores incluem o documentário musical Let it Be dos Beatles e uma parceria com Godard no também documentário Sympathy for the Devil (também conhecido como One Plus One) .