15 Agosto, 2005

"O Agente da Estação"

The Station Agent, de Thomas McCarthy
Estados Unidos, 2003


por Café

Certa vez fui com amigos jogar bola contra o time do Baby Beef. Eu sou lateral-direito, logo tinha que marcar o ponta-esquerda do time que era... O anão do Baby Beef. Passei o jogo inteiro preocupado em como teria que me comportar: se o tratava de uma forma “igual” e assim jogava de uma forma mais viril ou se levava em conta o pequeno porte físico do meu oponente e “pegava leve”. Fato é que em nenhum momento consegui me definir, pois a situação era por demais inusitada.

É mais ou menos assim que se sentem os personagens de O Agente da Estação, e não só eles, como também nós espectadores. Fin (Peter Dinklage) é um cara que tem poucas ambições na vida. Sua maior paixão são os trens, aos quais dedica a maior parte do seu tempo. Por sofrer de nanismo, decide levar uma vida reclusa e discreta.

Por uma série de eventos, Fin se muda para uma cidadezinha chamada Nova Terra. Ele quer apenas continuar essa sua rotina de passar despercebido na multidão, mas convenhamos que é um pouco difícil. Joe (Bobby Cannavale, da série Third Watch) é o primeiro a insistir em uma aproximação com Fin. A ele se juntam Olivia (Patrícia Clarksom, de Do Jeito Que Ela É), Emily (Michelle Williams da série Dawson’s Creek) e a garotinha Cleo (Raven Goodwin).

Todos esses personagens se juntam a Fin porque necessitam de apoio no seu dia-a-dia. Joe vende cafés-com-leite num trailer substituindo seu pai doente e Olivia ainda lamenta a perda do filho. Esses são os maiores companheiros de Fin na sua jornada rumo ao autodescobrimento. Eles são personagens perdidos e confusos, ainda em dúvida sobre quais os segredos de viver. Fin acha que pelo fato de ser anão tem que levar uma vida de privações, mas vai descobrir muitas surpresas no seu caminho.

Filmado com um orçamento inferior a 500 mil dólares, O Agente da Estação é uma aula de cinema a baixo custo. Vencedor de prêmios no Festival de Sundance, o diretor Thomas McCarthy tem como principal mérito não transformar o protagonista em simples merecedor de nossa compaixão, nem tampouco se resumir ao rótulo “filme de anão”. Esta descrição é muito simplória e não condiz com a riqueza de sensações que o filme nos passa.

Peter Dinklage despe o protagonista de qualquer carisma, sobrando apenas o necessário para uma soberba performance. A sua incredulidade sob certas situações e os sorrisos que aparecem na segunda hora do filme mostram um amadureciemnto do personagem. Ele em nenhum momento mostra a fragilidade que muitos julgam em um anão pelo pequeno porte físco. Pelo contrário, a determinação de Fin é algo emocionante.

É estranho, assim como foi para mim naquele jogo contra o Baby Beef, saber como nos posicionar durante a projeção, porque o filme descarta a possibilidade de tratarmos o protagonista apenas como um anão. Fin é muito mais do que isso e nos mostra a dificuldade de ser apenas “mais um”.

10 Agosto, 2005

Os irmãos Dardenne


por Café

Era uma vez um país chamado Bélgica, nação quase dividida entre uma parte da população que fala flamengo (a língua mesmo, nada a ver com o Zico) e a outra que fala francês. Os filmes falados em flamengo sempre tiveram boas bilheterias, mas a parte francesa da Bélgica sempre preferia os “originais” franceses, antes do sucesso internacional dos irmãos Dardenne. Eles revolucionaram não só a estética e linguagem existentes, como também o modo de produção de filmes vigentes até então lá pelas bandas de Bruxelas.

Você não conhece os irmãos Dardenne? Pois finalmente você e os outros cinéfilos de Salvador poderão se esbaldar com a Mostra dos Irmãos Dardenne, dentro da programação do IV Panorama Internacional Coisa de Cinema (confira as sinopses aqui). Outro filme dos Dardenne, O Filho (que também está nesta mostra) foi exibido pela primeira vez em Salvador justamente no Panorama há dois anos atrás, entrando em cartaz em seguida. Mas foi só. Rosetta, por exemplo, filme tão comentado, foi o único ganhador da Palma de Ouro em Cannes desde 1999 a não entrar em exibição na Bahia.

Jean-Pierre e Luc Dardenne são dois irmãos belgas que produzem, escrevem e dirigem seus filmes sempre em dupla. Oriundos do documentário, eles usam essa base nos seus filmes de ficção. O cinema político aqui toma um outro significado. Não há heróis, tomadas de consciência e nem tampouco denúncia pura e simples.

Eles começaram sua trajetória internacional com A Promessa, vencedor do César de Melhor Filme Estrangeiro. Isto era só o começo e 3 anos depois eles conquistavam a Palma de Ouro de Cannes com Rosetta em 1999, a primeira vez que o prêmio ia para um filme belga. Concorreu outra vez com O Filho e este ano foram premiados novamente com o ainda inédito L' Enfant. Mostrando mais uma vez o engajamento da dupla de cineastas, quando subiram ao palco para receber a premiação neste ano, os Dardenne dedicaram o prêmio à jornalista Florence Aubenas, do jornal francês Libération, e seu guia, Hussein al-Saadi, seqüestrados e ainda desaparecidos no Iraque.

09 Agosto, 2005

"A Filha do Presidente"

First Daughter, de Forest Whitaker
(EUA, 2004)


por Café

Forest Whitaker é um cara estranho. Sempre dei o maior ponto a ele porque suas interpretações sempre deram um toque refinado em filmes "meia-boca" como Fenômeno. É verdade que nem ele conseguiu salvar A Reconquista, “mas aí também é demais também”. Além do que o cara atuou em Traídos Pelo Desejo, Ghost Dog, Platoon e Bird – com qual ganhou o prêmio de ator em Cannes em 88.

Não entendo, portanto, os critérios que ele usa para escolher os projetos os quais irá dirigir. Até para quem já dirigiu Whitney Houston em Falando de Amor, é no mínimo “queimação” se empenhar num projeto como A Filha do Presidente, que conta pela enésima vez a historinha de amor impossível entre pessoas de classes diferentes, desta vez entre a filha do presidente dos Estados Unidos e seu guarda-costas.

Katie Holmes faz o papel da filha mimada do presidente norte-americano. Mesmo na faculdade, ela é obrigada a andar para cima e para baixo com a escolta do Serviço Secreto, além do que cada gesto seu vira notícia imediata. A atuação de Holmes está bem parecida com a que ela vem desempenhando atualmente com Tom Cruise. Michael Keaton faz o papel do todo-poderoso presidente ianque, numa atuação pior até do que a do próprio Bush. Além deles, Whitaker faz questão de arrumar espaço no elenco para quase toda a família.

Baseando-se claramente na exposição gerada por Chelsea Clinton nos seus anos de primeira-filha, este filme marca insossamente a re-estréia de Katie “Cruise” Holmes no gênero das comédias românticas, estilo que a consagrou na série de TV Dawson’s Creek. Mas também, com os roteiristas de Legalmente Loira 2 e Teenagers - As Apimentadas na equipe, era querer um pouco demais.