"O Agente da Estação"
The Station Agent, de Thomas McCarthy
Estados Unidos, 2003
por Café
Certa vez fui com amigos jogar bola contra o time do Baby Beef. Eu sou lateral-direito, logo tinha que marcar o ponta-esquerda do time que era... O anão do Baby Beef. Passei o jogo inteiro preocupado em como teria que me comportar: se o tratava de uma forma “igual” e assim jogava de uma forma mais viril ou se levava em conta o pequeno porte físico do meu oponente e “pegava leve”. Fato é que em nenhum momento consegui me definir, pois a situação era por demais inusitada.
É mais ou menos assim que se sentem os personagens de O Agente da Estação, e não só eles, como também nós espectadores. Fin (Peter Dinklage) é um cara que tem poucas ambições na vida. Sua maior paixão são os trens, aos quais dedica a maior parte do seu tempo. Por sofrer de nanismo, decide levar uma vida reclusa e discreta.
Por uma série de eventos, Fin se muda para uma cidadezinha chamada Nova Terra. Ele quer apenas continuar essa sua rotina de passar despercebido na multidão, mas convenhamos que é um pouco difícil. Joe (Bobby Cannavale, da série Third Watch) é o primeiro a insistir em uma aproximação com Fin. A ele se juntam Olivia (Patrícia Clarksom, de Do Jeito Que Ela É), Emily (Michelle Williams da série Dawson’s Creek) e a garotinha Cleo (Raven Goodwin).
Todos esses personagens se juntam a Fin porque necessitam de apoio no seu dia-a-dia. Joe vende cafés-com-leite num trailer substituindo seu pai doente e Olivia ainda lamenta a perda do filho. Esses são os maiores companheiros de Fin na sua jornada rumo ao autodescobrimento. Eles são personagens perdidos e confusos, ainda em dúvida sobre quais os segredos de viver. Fin acha que pelo fato de ser anão tem que levar uma vida de privações, mas vai descobrir muitas surpresas no seu caminho.
Filmado com um orçamento inferior a 500 mil dólares, O Agente da Estação é uma aula de cinema a baixo custo. Vencedor de prêmios no Festival de Sundance, o diretor Thomas McCarthy tem como principal mérito não transformar o protagonista em simples merecedor de nossa compaixão, nem tampouco se resumir ao rótulo “filme de anão”. Esta descrição é muito simplória e não condiz com a riqueza de sensações que o filme nos passa.
Peter Dinklage despe o protagonista de qualquer carisma, sobrando apenas o necessário para uma soberba performance. A sua incredulidade sob certas situações e os sorrisos que aparecem na segunda hora do filme mostram um amadureciemnto do personagem. Ele em nenhum momento mostra a fragilidade que muitos julgam em um anão pelo pequeno porte físco. Pelo contrário, a determinação de Fin é algo emocionante.
É estranho, assim como foi para mim naquele jogo contra o Baby Beef, saber como nos posicionar durante a projeção, porque o filme descarta a possibilidade de tratarmos o protagonista apenas como um anão. Fin é muito mais do que isso e nos mostra a dificuldade de ser apenas “mais um”.

