"A Lenda do Zorro"
The Legend of Zorro, de Martin Campbell
Estados Unidos, 2005
por Café
O presidente conservador, autoritário e perverso de um país importante determina que todos os mexicanos residentes nas suas antigas terras sejam expulsos sem muita demora. O que o povo oprimido faria? Correria para a igreja e faria o sino soar cinco vezes para chamar o Zorro! É, mas na vida real, as coisas são um pouquinho mais complicadas...
Esta semana George W. Bush decretou uma caça aos imigrantes ilegais, principalmente aos mexicanos. Conhecidos pejorativamente como cucarachas (baratas, em espanhol), o presidente americano está querendo expulsar do país os descendentes dos antigos donos de boa parte dos Estados Unidos (porque os donos da outra parte, os índios, já foram mortos por John Wayne e sua gangue).
Com esse interessante contexto se desenrolando atualmente, A Lenda do Zorro se tornava interessante para sabermos qual posicionamento ele tomava. Seria um filme sobre a opressão ao Zé Povão ou mais um filme ufanista ianque?
A Lenda do Zorro começa dez anos após a trama de A Máscara do Zorro. O nosso herói continua lutando pelas causas nobres, sendo adorado pelo povo. Mas em casa sua situação não está nada boa. Elena (Catherine Zeta-Jones) continua casada com o Zorro (Antonio Banderas) e o acusa de ser um pai e marido ausente. Coloca-o contra a parede, diz “ou eu ou a máscara” e, com isso, acaba forçando um divórcio. Zorro não pode se aposentar ainda porque a Califórnia pré-Schwarzenegger está em vias de se anexar à União (Estados Unidos) e muitos estão querendo boicotar este processo. Para quem sabe um pouco de História, é lastimável a distorção dos fatos nessa parte do filme. Dizer que a Califórnia foi livre e espontaneamente inserida nos Estados Unidos é uma leviandade.
Zorro, então, fica meio sem ter o que fazer. Ninguém precisa de sua ajuda nos três meses seguintes e ele passa a se dedicar em tempo integral ao papel de corno-manso, já que sua ex-esposa troca sorrisinhos com um almofadinha forasteiro. Para completar, seu filho lhe acha um George McFly do velho oeste e tem em Zorro seu ideal. Sinceramente, esse clichê de que o homem normal não consegue superar o herói ao qual encarna nem Stan Lee mais agüenta.
Lembra da pergunta no começo do texto (“Seria um filme sobre a opressão ao Zé Povão ou mais um filme ufanista ianque?”)? Na sua primeira metade, o filme parece se encaixar na primeira afirmação. Zorro é o Robin Hood que não rouba, O Varela dos mexicanos. Não há espaços para injustiças e o povo aqui assume um papel primordial. Isso até o momento da prisão... A partir desta cena, o foco do filme muda e o que vemos é um bando de forasteiros construindo a bomba atômica da época e querendo destruir a América. Acreditem!
Banderas e Zeta-Jones dão continuidade à ótima química que rendeu mais de 200 milhões de dólares no primeiro filme. Os beijos desentupidor-de-pia ainda marcam presença, mas não são suficientes para segurar a tensão do filme. O diretor Martin Campbell usa a desculpa da descoberta da nitroglicerina para exagerar nas explosões, mais ainda do que no primeiro filme. Resultado: uma senhora ao fim do filme questionou: “Onde está o Tonto que não ajuda o Zorro?”. Não a corrigi, pois sei que filmes assim realmente nos deixam tontos e confusos.



