29 Novembro, 2005

"Harry Potter e o Cálice de Fogo"

Harry Potter and the Goblet of Fire, de Mike Newell
Estados Unidos, 2005



por Café

Fenômeno mundial em gerar receitas, os livros e filmes de Harry Potter estavam destinados inicialmente para crianças e pré-adolescentes. Isso explica o tom exageradamente infantil e as cópias dubladas assolando os cinemas anos atrás. Entretanto, os leitores de Harry Potter cresceram e junto com eles os personagens da série - fato que a escritora J. K. Rowling sabe explorar muito bem.

Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban já era um passo importante neste sentido. O diretor Alfonso Cuarón havia imprimido uma narrativa mais sombria à terceira parte da série. O perigo para Harry Potter e seus amigos era cada vez mais real, assim como os desafios de suas vidas. Logo, Harry Potter e o Cálice de Fogo era uma passo natural na maturação da trama e de seus personagens.

Todos estão reunidos na Escola de Magia e Bruxaria Hogwarts para a disputa do Torneio Tribuxo, disputa internacional entre representantes das principais escolas de bruxaria da Europa. Um representante de cada escola arriscará sua vida em busca da glória eterna. Por estes perigos e pela aparição dos Comensais da Morte (soldados fiéis do lorde “Você-Sabe-Quem” Voldemort), todos os jovens menores de 17 anos são barrados no baile (nesse caso, no torneio). Mesmo assim, para surpresa de todos, Harry Potter (Daniel Radcliffe) acaba sendo escolhido como um representante extra, apesar de estar com apenas 14 anos. Isto, sem dúvidas, mostra que alguém está conspirando contra o bruxinho.

Mais do que os perigos das três tarefas aos quais será submetido durante o Torneio Tribuxo, Harry Potter terá um grande desafio: ser um adolescente. Em certo momento do filme ele chega a comparar a dificuldade de convidar uma garota para o baile a enfrentar dragões raivosos, preferindo a este último. O sentimento de amizade entre o trio principal de amigos também está à prova com as mudanças repentinas de humor típica dos hormônios da idade. Harry, Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) começam a sentir atração pelo sexo oposto, incluindo ciúmes e paixonites ao que era simplesmente amizade.

Os atores de Harry Potter e o Cálice de Fogo estão cada vez mais à vontade em seus papéis e torna-se interessante acompanharmos o crescimento dos personagens/atores, presentes desde o primeiro filme (Harry Potter e a Pedra Filosofal). Assim como na série Anos Incríveis, o charme consiste em se compartilhar com os personagens os seus ritos de passagem.

A aparição do principal inimigo de Potter é o ponto alto do filme. Lorde Voldemort (Ralph Fiennes, de O Jardineiro Fiel) transmite um sentimento real de medo, e sua maquiagem é perfeita, totalmente pálida, enaltecendo suas expressões faciais. Tiveram o cuidado de colocá-lo sem nariz, parecendo uma serpente (também ficou parecido com Michael Jackson). Nesta seqüência, sentimos a angústia de Potter, frente a frente pela primeira vez com o assassino de seus pais.

O principal mérito de Mike Newell é conduzir tão bem diferentes tramas dentro do mesmo filme. Segundo muitos fãs, Harry Potter e o Cálice de Fogo é o melhor livro da série. Baseado num roteiro enxuto de Steve Kloves (também roteirista dos três primeiros), Newell tem a virtude de mostrar que era possível fazer um único filme sobre o quarto livro. A Warner cogitou dividir as 734 páginas de Harry Potter e o Cálice de Fogo em dois filmes devido às suas sub-tramas, mas Newell foi contra e provou que ter sido uma decisão acertada. Contudo, Cuarón continua imbatível na visão apresentada sobre o mundo mágico de Harry Potter.

25 Outubro, 2005

"A Lenda do Zorro"

The Legend of Zorro, de Martin Campbell
Estados Unidos, 2005



por Café

O presidente conservador, autoritário e perverso de um país importante determina que todos os mexicanos residentes nas suas antigas terras sejam expulsos sem muita demora. O que o povo oprimido faria? Correria para a igreja e faria o sino soar cinco vezes para chamar o Zorro! É, mas na vida real, as coisas são um pouquinho mais complicadas...

Esta semana George W. Bush decretou uma caça aos imigrantes ilegais, principalmente aos mexicanos. Conhecidos pejorativamente como cucarachas (baratas, em espanhol), o presidente americano está querendo expulsar do país os descendentes dos antigos donos de boa parte dos Estados Unidos (porque os donos da outra parte, os índios, já foram mortos por John Wayne e sua gangue).

Com esse interessante contexto se desenrolando atualmente, A Lenda do Zorro se tornava interessante para sabermos qual posicionamento ele tomava. Seria um filme sobre a opressão ao Zé Povão ou mais um filme ufanista ianque?

A Lenda do Zorro começa dez anos após a trama de A Máscara do Zorro. O nosso herói continua lutando pelas causas nobres, sendo adorado pelo povo. Mas em casa sua situação não está nada boa. Elena (Catherine Zeta-Jones) continua casada com o Zorro (Antonio Banderas) e o acusa de ser um pai e marido ausente. Coloca-o contra a parede, diz “ou eu ou a máscara” e, com isso, acaba forçando um divórcio. Zorro não pode se aposentar ainda porque a Califórnia pré-Schwarzenegger está em vias de se anexar à União (Estados Unidos) e muitos estão querendo boicotar este processo. Para quem sabe um pouco de História, é lastimável a distorção dos fatos nessa parte do filme. Dizer que a Califórnia foi livre e espontaneamente inserida nos Estados Unidos é uma leviandade.

Zorro, então, fica meio sem ter o que fazer. Ninguém precisa de sua ajuda nos três meses seguintes e ele passa a se dedicar em tempo integral ao papel de corno-manso, já que sua ex-esposa troca sorrisinhos com um almofadinha forasteiro. Para completar, seu filho lhe acha um George McFly do velho oeste e tem em Zorro seu ideal. Sinceramente, esse clichê de que o homem normal não consegue superar o herói ao qual encarna nem Stan Lee mais agüenta.

Lembra da pergunta no começo do texto (“Seria um filme sobre a opressão ao Zé Povão ou mais um filme ufanista ianque?”)? Na sua primeira metade, o filme parece se encaixar na primeira afirmação. Zorro é o Robin Hood que não rouba, O Varela dos mexicanos. Não há espaços para injustiças e o povo aqui assume um papel primordial. Isso até o momento da prisão... A partir desta cena, o foco do filme muda e o que vemos é um bando de forasteiros construindo a bomba atômica da época e querendo destruir a América. Acreditem!

Banderas e Zeta-Jones dão continuidade à ótima química que rendeu mais de 200 milhões de dólares no primeiro filme. Os beijos desentupidor-de-pia ainda marcam presença, mas não são suficientes para segurar a tensão do filme. O diretor Martin Campbell usa a desculpa da descoberta da nitroglicerina para exagerar nas explosões, mais ainda do que no primeiro filme. Resultado: uma senhora ao fim do filme questionou: “Onde está o Tonto que não ajuda o Zorro?”. Não a corrigi, pois sei que filmes assim realmente nos deixam tontos e confusos.

16 Outubro, 2005

"O Senhor das Armas"

Lord of War, de Andrew Niccol
Estados Unidos, 2005



por Café

Outubro é mês de plebiscito sobre a não-proibição da não-comercialização de armas de fogo e é uma feliz coincidência (será que realmente foi coincidência?) a chegada de Senhor das Armas aos cinemas.

Na cena inicial, vemos a trajetória de vida de uma bala. Ao som de For What It's Worth, de Buffalo Springfield, a cena se inicia na linha de produção em algum lugar da ex-União Soviética, passa por portos sob o comando de traficantes até servir de munição ao fuzil em alguma guerra civil africana e acabar na cabeça de uma criança. Esta cena inicial já prepara o espectador para o que o filme propõe: uma reflexão sobre o mundo dos traficantes de armas.

Yuri Orlov é o Sr. da Guerra do título original. Ele é um imigrante russo que se muda ainda pequeno para os Estados Unidos disfarçado de judeu. Ele vive em Odessa, região de Nova York onde está concentrada boa parte da máfia russa em solo americano. Logo ele percebe que poderia lucrar muito com o comércio ilegal de armas e o que era um simples negócio em breve o tornará um dos maiores traficantes de armas do planeta.

Aproveitando-se do esfacelamento das repúblicas soviéticas, ele suborna um oficial ucraniano (seu tio, aliás) que passa a municiá-lo com enormes quantidades a preços irrisórios, o sonho de qualquer empreendedor. Yuri passa a influenciar decisivamente nos conflitos mundiais, destacadamente na África.

O roteiro e a direção de O Senhor das Armas são de Andrew Niccol e prendem o espectador pela variedade de situações e pela forma quase fantasiosa como é contada a história. A cena que o presidente da Libéria, o principal cliente de Orlov, culpa a MTV pela má educação dos jovens traz sarcasmo e ironia numa fala quase despretensiosa, comprovando que Niccol não perdeu a mão desde seu excelente rotreiro de O Show de Truman (acredito piamente que quando dirigiu Simone ele estava sob medicação pesada).

A atuação de Nicolas Cage (de Os Vigaristas) beira o perfeito. Seu Orlov é um sujeito crível, quase um sujeito comum. Ele é um bom pai, marido e irmão. Ele bem que poderia ser seu vizinho. Por trás dessa aparente inocência, esconde-se um sujeito que covardemente influi negativamente na vida de milhões de pessoas no mundo. Ethan Hawke (de Antes do Pôr-do-Sol) mais uma vez confirma seu talento na pele de um agente da Interpol que vive perseguindo Orlov. A surpresa fica por conta de Eamonn Walker como o presidente liberiano André Baptiste, responsável pelos melhores momentos do filme. O ponto baixo é Jared Leto (de Réquiem para um Sonho) interpretando o irmão do protagonista num papel dispensável.

O Senhor das Armas mantém um ritmo interessante até o momento “marrom-marrom” (quem assistir saberá). A partir daí o filme perde totalmente seu ritmo e discurso, passando a não convencer. No último ato, entretanto, o filme volta a mostrar a que veio, mas parece que as notas que aparecem ao fim da projeção (e que são de suma importância) bem que poderiam estar no roteiro de forma mais contundente.

A trilha sonora me pareceu muito óbvia. Young Americans, de David Bowie, para mostrar Yuri e o irmão (apesar de serem russos) fazendo sucesso, Money (That's What I Want), de Flying Lizards, quando os protagonistas começam a ganhar dinheiro e Cocaine, de Eric Clapton, quando cheiram cocaína não me parecem um exercício de criatividade. A bela Hallelujah na voz de Jeff Buckley também aparece num momento totalmente impróprio.

Baseado na biografia de cinco traficantes de armas, Yuri Orlov é a personificação da falta de escrúpulos e princípios não só destes traficantes, mas sim de todos que de alguma forma lucram com a exploração de outras pessoas. Talvez por isso nenhum estúdio americano tenha financiado o filme. Assim como em O Jardineiro Fiel, fica claro que não há limites para cada um prosperar em seus negócios. As vidas custam pouco, são descartáveis. E ainda podemos fazer uma mea culpa como o protagonista e dizermos que não somos nós quem puxa o gatilho.

15 Outubro, 2005

"O Jardineiro Fiel"

The Constant Gardener, de Fernando Meirelles
Inglaterra, 2005



por Café

O mundo das agências de propaganda é cheio de historinhas. Era uma vez mais uma festa de premiação dos melhores daquele ano. Um certo profissional, fora do mercado há pelo menos dois anos, mesmo assim foi escolhido O Publicitário do Ano, tal sua força e presença no mercado. O nome dele era Fernando Meirelles.

Meirelles tem sua trajetória fora da publicidade marcada por dirigir episódios do Telecurso 2000 e tentativas discretas no meio cinematográfico, como Domésticas. Mas com Cidade de Deus, Meirelles aparecia ao mesmo tempo para o Brasil (pois pouca gente o conhecia) e para o mundo, o resto é História (e não historinha)...

Logo, sua migração para o mercado internacional era um passo lógico, ainda mais após as 4 indicações ao Oscar (incluindo Melhor Diretor). Centenas de projetos lhe foram oferecidos, tendo inclusive começado a dirigir Colateral, ainda com Russell Crowe como protagonista. Ele estava inclinado a começar um projeto pessoal quando apareceu a oportunidade de dirigir O Jardineiro Fiel.

Baseado no best-seller de John Le Carré (que na verdade se chama David Cornwell), O Jardineiro Fiel nos mostra o casal Quayle vivendo no Quênia. Justin (Ralph Fiennes, de Spider) é um alto diplomata britânico, figura quase decorativa. Ele passa mais tempo cuidando de seus jardins do que influindo nas decisões globais. Tessa (Rachel Weisz, de Constantine) é uma jovem advogada engajada e que vê na mudança para Nairóbi uma possibilidade de aumentar sua militância.

A atuação de Fiennes e Weisz é a harmonia que domina o filme. Fiennes principalmente - como na cena do necrotério, onde faz uma atuação minimalista, que mais diz com o silêncio do que poderia com mil frases. A cena na qual ele descobre um vídeo íntimo gravado pela sua esposa é de arrebatar até os corações mais insensíveis. Todas as cenas que possuem um ponto de vista de algum personagem foram gravadas pelos próprios atores, numa liberdade não habitual em Hollywood (Meirelles insiste que não é um filme americano, nem no sentido de financiamento, nem de mentalidade de produção). Destacam-se ainda no elenco Danny Hustoun (filho de John Huston), Bill Nighy (de Simplesmente Amor) e Pete Postlethwaite (de Em Nome do Pai) numa participação pequena, porém marcante.

Meirelles afirma que o livro tem uma visão muito colonialista do continente africano. Pois a África não é retratada de forma tão digna desde ABC África, de Abbas Kiarostami. A câmera nunca parece querer nos mostrar aquela beleza que nos envergonha, a beleza da miséria. O termo “estética da fome” foi usado pejorativamente à época de Cidade de Deus e para nossa sorte esquecido nos dias atuais. Meirelles junto com seu diretor de fotografia brasileiro César Charlone (o mesmo de Cidade de Deus, segundo Meirelles co-diretor do filme) nos mostram uma África um pouco diferente daquela que a mídia nos mostra.

A favela de Kibera, a maior do Quênia, faz do barro das paredes dos seus barracos e da terra batida no chão um único tom, monocromático, apenas aliviado pelo azul insistente do céu. Os planos alcançados por Charlone parecem tirados de uma pintura expressionista e expressam (redundante mesmo!) fielmente a textura da trama.

Fernando Meirelles afirma que “cinema é arte, mas é indústria também. O dia que eu quiser expressar livre e integralmente minha subjetividade basta escrever um poema, fazer uma aquarela, algo sim. É como funciona. Faço isso sem problemas”. Assume assim um lugar respeitável dentre os cineastas brasileiros, fato difícil num país onde todos parecem órfãos do “jeito Glauber de fazer cinema”.

Com uma clara influência de 21 Gramas (um dos "filmes de cabeceira" de Meirelles durante as filmagens), principalmente com relação ao valor da vida, O Jardineiro Fiel é um filme sobre o amor. Amor entre duas pessoas, amor à vida de outras pessoas. Amor a um continente que teimamos em negligenciar.


Saladearte - Cine XIV
18h35

06 Outubro, 2005

"Quatro Irmãos"

Four Brothers, de John Singleton
Estados Unidos, 2005



por João Vítor e Café

Minha infância foi à base de feijão e muitos filmes de ação. Dentre os vários filmes memoráveis - Comando Para Matar, Rambo, Robocop -, um se destacava: o James Bond de Sean Connery. O cara era o ideal de herói de ação: arrebentava os vilões, traçava todas as mulheres e não tava nem aí pra nada e nem pra ninguém. Pois o mesmo personagem que usava mulher como escudo humano (na época de Connery), já nos anos 90, acredite se puder, hesitava em matar uma vilã só por ter ido para a cama com ela (isto já com o Brosnan). Neste momento, a série se tornou síntese da decadência do cinema de ação. Sua causa? O politicamente correto, fato gerador dos heróis da década passada, seres sensíveis que matam apenas para salvar a própria vida e não falam palavrão, ou seja, umas bichinhas. É justamente por nadar contra essa maré de conservadorismo que Quatro Irmãos é tão bom.

Refilmagem de Os Filhos de Katie Elder, Quatro Irmãos conta a história de (adivinhem?) quatro irmãos adotados (2 negros e 2 brancos) que se reúnem para investigar e, obviamente, vingar a morte mal-explicada da mãe adotiva. Os irmãos foram rejeitados por um sistema informal de adoções por nunca terem sido exemplos de bom comportamento (nos créditos finais aparecem as “performances” de cada um), fazendo com que a bondosa senhora Mercer os adotasse. Mesmo com heróis(?) tão dúbios, em nenhum momento a empatia da platéia com os personagens é afetada. Mark Wahlberg (de Huckabees), Tyrese Gibson (de + Velozes, + Furiosos), André Benjamin (de Be Cool) e Garrett Hedlund (de Tudo Pela Vitória) fazem qualquer um acreditar que aquela é uma família de verdade.

Eterna promessa desde que Os Donos da Rua surpreendeu o mundo com sua linguagem direta e uma estética crua ao mostrar a violência, John Singleton havia se tornado um diretor mediano. Seus filmes, como Massacre de Rosewood e Shaft, davam a impressão de que seriam muito melhores com outro no comando. Quatro Irmãos é mais um exemplo da visão muito particular sobre justiça do diretor John Singleton (neguinho tem que resolver as coisas é na bala, a polícia não serve pra nada e Charles Bronson deveria ser Ministro da Justiça). Neste filme, porém, ele supera todas as expectativas. Mostrando coragem, Singleton gasta uns vinte minutos no começo do filme só para vermos a interação entre os personagens. São cenas em que nada de importante acontece, mas que se torna crucial para que torçamos pelos irmãos em seguida. Porque quando eles começam a investigação...

O grande mérito do roteiro de Paul Lovett e David Elliot é compreender perfeitamente seus personagens. Ali não estão policiais interessados em fazer justiça. O que eles buscam é pura e simplesmente vingança. Soma-se a isso o passado violento de todos eles e o fato de que, convenhamos, mataram a mãe dos caras! Prepare-se então para uma enxurrada de torturas, tapas, execuções e o “escambáu”, com destaque para quando eles vão interrogar uma testemunha. Surpreendentemente, são dessas cenas que surgem momentos hilários, frutos da falta de clemência e total desrespeito pelas leis demonstradas pelos irmãos, em especial o irmão mais velho Bobby (Mark Whalberg, cada vez melhor em suas atuações). E heróis tão fortes necessitam de antagonistas mais fortes ainda. E Quatro Irmãos também não decepciona neste quesito. Victor Sweet (Chiwetel Ejiofhor, de Melinda e Melinda) já é candidato ao prêmio de Melhor Vilão do Ano do MTV Movie Awards. Um cara cruel e que não poupa nem seus capangas. Um cara mau porque... é mau. Ele tem um figurino que remete imediatamente aos filmes black dos anos 70 (referência constante no filme, seja pelos closes característicos da época, seja pelo “espírito” da história).

As cenas nas quais os irmãos relembram da mãe mostram o desconforto do diretor em filmar cenas mais sensíveis e, juntamente com uma pequena queda de ritmo após o espetacular tiroteio que fecha o segundo ato, mostram que o filme não é perfeito. Contudo, Quatro Irmãos tem qualidades suficientes para ser considerado o melhor filme-pipoca do ano até agora com um corpo de vantagem (e um dos mais lucrativos, já tendo arrecado mais de duas vezes seu orçamento). Mesmo que atualmente James Bond fique chocado com tanta violência.

01 Outubro, 2005

"A Chave Mestra"

The Skeleton Key, de Iain Softley
Estados Unidos, 2005


por Café

Nas últimas semanas, o furacão Katrina tomou conta dos noticiários. A destruição causada pela tempestade na cidade de Nova Orleans foi destaque, bem como a falta de assistência de Bush aos desabrigados – em sua maioria negros. A mais soteropolitana das cidades norte-americanas ganha destaque na mídia coincidentemente ao mesmo tempo em que dois filmes ambientados na cidade ganham destaque no circuito: Uma Canção para Bobby Long, que foi lançado direto para as locadoras, e A Chave Mestra, suspense que faz uma boa bilheteria nos cinemas.

A Chave Mestra, a princípio, parece não se esforçar para fugir da estereotipagem típica de filmes em Nova Orleans, com músicos decadentes ou pessoas fazendo vodu. Hollywood fez escola com a Globo (ou seria o contrário?) e sempre que o filme não se passa no eixo Nova York-Los Angeles é apenas para "temperar" a história com elementos locais ao gosto do diretor.

Kate Hudson (de Quase Famosos) é Caroline, uma jovem enfermeira que decide ir cuidar de um paciente na região pantanosa da cidade (a mais afetada pelo furacão) a fim de dar uma incrementada na renda. Seu paciente é um senhor que sofreu um derrame e mora sozinho com sua esposa numa mansão. A chave mestra do título abre todas as portas da casa, exceto... um quartinho isolado. É claro que nossa heroína será curiosa o suficiente para entrar no quarto e se empenhar em resolver o mistério que o circunda.

Hudson é sem dúvidas o ponto forte do filme. Diferente daquelas loiras em filmes do gênero, que só sabem gritar, sua Caroline é forte e destemida o bastante para encarar a situação, que vai se complicando à medida em que ela se dedica ao caso.

Iain Softley (de Cinco Rapazes de Liverpool e K-Pax) não está à altura das possibilidades que o tema lhe oferece. Vodu e magia negra, se bem administrados, dariam um ótimo filme de terror, contribuindo para o clima de suspense de A Chave Mestra. Ao invés disso, Softley opta por fazer uma cópia b de Coração Satânico, este sim um grande filme no tema.

O roteiro de Ehren Kruger (de O Suspeito da Rua Arlington) não colobora também. Uma breve olhada na filmografia de Kruger revela que seus roteiros têm sempre twist-in-the-end, aquela obrigação de um “final surpreendente” (final este que se mostra óbvio demais em Chave Mestra). Como consolo, a forma interessante como se dá o desfecho do filme - e não a história revelada. Uma cena final com ironia e inteligência que falta ao restante do filme (será que foi o assistente que dirigiu?).

13 Setembro, 2005

"Três Vidas e Um Destino"

Head in the Clouds, de John Duigan
Estados Unidos, 2004


por Café

Sempre quando conversava sobre pessoas ditas engajadas com meu ex-professor de História, ele me contava o caso de um grande amigo seu. Brasileiro de classe média, diferente destes esquerdistas atuais que muito falam e pouco fazem, este amigo, tão logo explodiu a Guerra Civil Espanhola, comprou passagem só de ida para lutar ao lado dos rebeldes espanhóis. Derrotados, seguiram à França para se unir à Resistência Francesa ao nazismo. Essa incrível história não é muito diferente da vivida por Guy (Stuart Townsend, de Rainha dos Condenados) em Três Vidas e Um Destino.

Guy é surpreendido quando Gilda Bassé (Charlize Theron, de Uma Saída de Mestre) se abriga no seu quarto por uma noite. Mulher moderna e cativante, ela mantém um caso liberal com um professor e logo ela e Guy se apaixonam. Separam-se por um tempo, mas logo se reencontram em Paris. Passam a dividir o apartamento com a enfermeira Mia (Penélope Cruz, de Vanilla Sky), uma refugiada espanhola. Desde cedo, talvez pela maior restrição econômica, Guy desenvolve um discurso político engajado, mas sempre é contestado pelo espírito carpe diem da boêmia Gilda. Guy e Mia acabam se alistando como voluntários na Espanha na luta contra o fascismo de Franco. Os dois acabam se isolando de Gilda, que parece ignorar a realidade histórica que a cerca.

Mais um exemplar do gênero romance-que-se-passa-numa-guerra, o diretor John Duigan parece preguiçoso e formal demais na maneira que mostra a história. O romance entre Guy e Gilda nunca chega a empolgar, nem tão pouco o suposto triângulo romântico da trama. A atuação de Charlize Theron em muitos momentos segura a atenção, mas não é o suficiente para dar o equilíbrio desejado ao filme. A França da Segunda Guerra Mundial parece ser retratada com desleixo pela equipe técnica, como se um ‘becozinho’ de paralelepípedos resolvesse completamente a caracterização da época.

Mesmo assim, Três Vidas e Um Destino acaba se diferenciando de filmes como Cold Mountain pelo mérito de discutir as diferentes maneiras possíveis de se lutar por um ideal. As pessoas na agitação dos acontecimentos parecem regredir a um comportamento repressor, onde apenas um tipo de conduta é aceitável. Será que os (ex)petistas irão concordar?

07 Setembro, 2005

"Uma Canção de Amor para Bobby Long"

A Love Song for Bobby Long, de Shainee Gabel
Estados Unidos, 2004


por Café

Sabe quando você chega numa festa de família ou seus pais encontram um grande amigo e alguém pergunta: “Você se lembra de mim? Eu te carreguei no colo e...” Eu acho isso muito chato, geralmente digo logo que não me lembro (ou ele queria que eu me lembrasse de coisas fúteis aos meus dois anos de idade?).

É assim que se sente Pursy (Scarlet Johansson), uma jovem que volta à Nova Orleans, cidade onde passou a infância, para receber a casa que foi deixada como herança após a morte de sua mãe. O inusitado é que ela terá que dividí-la com dois amigos da falecida, Bobby Long (John Travolta) e Lawson Pines (Gabriel Macht). Para Pursy, a casa é um ambiente claustrofóbico, sufocante com seu calor e umidade. Esse desconforto origina-se na angustiante busca em reconstruir suas memórias. Através apenas de relatos de amigos, estas lembranças vão situando-a neste seu recomeço de vida.

A cidade de Nova Orleans assume um papel fundamental no desenvolvimento narrativo e na caracterização dos personagens em Uma Canção de Amor para Bobby Long. Repleta de sincretismo religioso, a cidade é um lugar onde o passado parece teimar em reivindicar o seu lugar. Berço também da melhor música estadunidense, possui um carnaval muito animado - Mardi Gras - e uma das mais ricas gastronomias do país. Nova Orleans ainda preserva uma grande tradição oral, onde todos parecem ter uma história para contar, cuja veracidade é o que menos importa.

A diretora Shainee Gabel, nascida na cidade, faz do protagonista Bobby Long um personagem-síntese do espírito da cidade. Bobby Long é um cara que tem o romantismo quase como doença e passa seus dias embriagado, recitando poemas na companhia de Lawson Pines, seu fiel discípulo, paz quebrada com a chegada de Pursy. Tal qual a cidade, Bobby Long parece carregar consigo uma beleza decadente, uma espécie de culto ao passado.

O trabalho de Shainee Gabel na sua estréia em ficção fez Travolta compará-la a Tarantino na capacidade e lucidez enquanto roteirista/diretora. A cena que se passa num bonde esbanja naturalidade e é típica de um filme que se desenvolve em locações, contrariando a lógica hollywoodiana de filmar em estúdios.

A fotografia de Elliot Davis (Irresistível Paixão) mistura colorido e sombras, e acentua o choque do velho e novo presente no filme. Os atores também são conduzidos a grandes performances. O trio pricipal tem uma sintonia verossímil e acaba influindo positivamente no resultado final do filme.

15 Agosto, 2005

"O Agente da Estação"

The Station Agent, de Thomas McCarthy
Estados Unidos, 2003


por Café

Certa vez fui com amigos jogar bola contra o time do Baby Beef. Eu sou lateral-direito, logo tinha que marcar o ponta-esquerda do time que era... O anão do Baby Beef. Passei o jogo inteiro preocupado em como teria que me comportar: se o tratava de uma forma “igual” e assim jogava de uma forma mais viril ou se levava em conta o pequeno porte físico do meu oponente e “pegava leve”. Fato é que em nenhum momento consegui me definir, pois a situação era por demais inusitada.

É mais ou menos assim que se sentem os personagens de O Agente da Estação, e não só eles, como também nós espectadores. Fin (Peter Dinklage) é um cara que tem poucas ambições na vida. Sua maior paixão são os trens, aos quais dedica a maior parte do seu tempo. Por sofrer de nanismo, decide levar uma vida reclusa e discreta.

Por uma série de eventos, Fin se muda para uma cidadezinha chamada Nova Terra. Ele quer apenas continuar essa sua rotina de passar despercebido na multidão, mas convenhamos que é um pouco difícil. Joe (Bobby Cannavale, da série Third Watch) é o primeiro a insistir em uma aproximação com Fin. A ele se juntam Olivia (Patrícia Clarksom, de Do Jeito Que Ela É), Emily (Michelle Williams da série Dawson’s Creek) e a garotinha Cleo (Raven Goodwin).

Todos esses personagens se juntam a Fin porque necessitam de apoio no seu dia-a-dia. Joe vende cafés-com-leite num trailer substituindo seu pai doente e Olivia ainda lamenta a perda do filho. Esses são os maiores companheiros de Fin na sua jornada rumo ao autodescobrimento. Eles são personagens perdidos e confusos, ainda em dúvida sobre quais os segredos de viver. Fin acha que pelo fato de ser anão tem que levar uma vida de privações, mas vai descobrir muitas surpresas no seu caminho.

Filmado com um orçamento inferior a 500 mil dólares, O Agente da Estação é uma aula de cinema a baixo custo. Vencedor de prêmios no Festival de Sundance, o diretor Thomas McCarthy tem como principal mérito não transformar o protagonista em simples merecedor de nossa compaixão, nem tampouco se resumir ao rótulo “filme de anão”. Esta descrição é muito simplória e não condiz com a riqueza de sensações que o filme nos passa.

Peter Dinklage despe o protagonista de qualquer carisma, sobrando apenas o necessário para uma soberba performance. A sua incredulidade sob certas situações e os sorrisos que aparecem na segunda hora do filme mostram um amadureciemnto do personagem. Ele em nenhum momento mostra a fragilidade que muitos julgam em um anão pelo pequeno porte físco. Pelo contrário, a determinação de Fin é algo emocionante.

É estranho, assim como foi para mim naquele jogo contra o Baby Beef, saber como nos posicionar durante a projeção, porque o filme descarta a possibilidade de tratarmos o protagonista apenas como um anão. Fin é muito mais do que isso e nos mostra a dificuldade de ser apenas “mais um”.

10 Agosto, 2005

Os irmãos Dardenne


por Café

Era uma vez um país chamado Bélgica, nação quase dividida entre uma parte da população que fala flamengo (a língua mesmo, nada a ver com o Zico) e a outra que fala francês. Os filmes falados em flamengo sempre tiveram boas bilheterias, mas a parte francesa da Bélgica sempre preferia os “originais” franceses, antes do sucesso internacional dos irmãos Dardenne. Eles revolucionaram não só a estética e linguagem existentes, como também o modo de produção de filmes vigentes até então lá pelas bandas de Bruxelas.

Você não conhece os irmãos Dardenne? Pois finalmente você e os outros cinéfilos de Salvador poderão se esbaldar com a Mostra dos Irmãos Dardenne, dentro da programação do IV Panorama Internacional Coisa de Cinema (confira as sinopses aqui). Outro filme dos Dardenne, O Filho (que também está nesta mostra) foi exibido pela primeira vez em Salvador justamente no Panorama há dois anos atrás, entrando em cartaz em seguida. Mas foi só. Rosetta, por exemplo, filme tão comentado, foi o único ganhador da Palma de Ouro em Cannes desde 1999 a não entrar em exibição na Bahia.

Jean-Pierre e Luc Dardenne são dois irmãos belgas que produzem, escrevem e dirigem seus filmes sempre em dupla. Oriundos do documentário, eles usam essa base nos seus filmes de ficção. O cinema político aqui toma um outro significado. Não há heróis, tomadas de consciência e nem tampouco denúncia pura e simples.

Eles começaram sua trajetória internacional com A Promessa, vencedor do César de Melhor Filme Estrangeiro. Isto era só o começo e 3 anos depois eles conquistavam a Palma de Ouro de Cannes com Rosetta em 1999, a primeira vez que o prêmio ia para um filme belga. Concorreu outra vez com O Filho e este ano foram premiados novamente com o ainda inédito L' Enfant. Mostrando mais uma vez o engajamento da dupla de cineastas, quando subiram ao palco para receber a premiação neste ano, os Dardenne dedicaram o prêmio à jornalista Florence Aubenas, do jornal francês Libération, e seu guia, Hussein al-Saadi, seqüestrados e ainda desaparecidos no Iraque.

09 Agosto, 2005

"A Filha do Presidente"

First Daughter, de Forest Whitaker
(EUA, 2004)


por Café

Forest Whitaker é um cara estranho. Sempre dei o maior ponto a ele porque suas interpretações sempre deram um toque refinado em filmes "meia-boca" como Fenômeno. É verdade que nem ele conseguiu salvar A Reconquista, “mas aí também é demais também”. Além do que o cara atuou em Traídos Pelo Desejo, Ghost Dog, Platoon e Bird – com qual ganhou o prêmio de ator em Cannes em 88.

Não entendo, portanto, os critérios que ele usa para escolher os projetos os quais irá dirigir. Até para quem já dirigiu Whitney Houston em Falando de Amor, é no mínimo “queimação” se empenhar num projeto como A Filha do Presidente, que conta pela enésima vez a historinha de amor impossível entre pessoas de classes diferentes, desta vez entre a filha do presidente dos Estados Unidos e seu guarda-costas.

Katie Holmes faz o papel da filha mimada do presidente norte-americano. Mesmo na faculdade, ela é obrigada a andar para cima e para baixo com a escolta do Serviço Secreto, além do que cada gesto seu vira notícia imediata. A atuação de Holmes está bem parecida com a que ela vem desempenhando atualmente com Tom Cruise. Michael Keaton faz o papel do todo-poderoso presidente ianque, numa atuação pior até do que a do próprio Bush. Além deles, Whitaker faz questão de arrumar espaço no elenco para quase toda a família.

Baseando-se claramente na exposição gerada por Chelsea Clinton nos seus anos de primeira-filha, este filme marca insossamente a re-estréia de Katie “Cruise” Holmes no gênero das comédias românticas, estilo que a consagrou na série de TV Dawson’s Creek. Mas também, com os roteiristas de Legalmente Loira 2 e Teenagers - As Apimentadas na equipe, era querer um pouco demais.

30 Julho, 2005

"Irresistível Paixão"

Out of Sight, de Steven Soderbergh
(EUA, 1998)


por Café

Steven Soderbergh ainda era um diretor cult procurando seu lugar em Hollywood quando dirigiu Irresistível Paixão. Após o estrondo de sexo, mentiras e videotape no Festival de Cannes em 89, o diretor insistia numa carreira autoral marcada por filmes inexpressivos como Inventor de Ilusões e Kafka. Porém em 98 o jogo mudaria. Ele percebeu que poderia desenvolver projetos para os estúdios, sem com isso perder a chance de realizar filmes acima da média. Além disso, percebeu que estes mesmos projetos poderiam financiar seus filmes autorais (ou você acha que algum executivo de Hollywood financiaria Full Frontal?).

Baseado num livro de Elmore Leonard (Nome do Jogo e Jackie Brown), Irresistível Paixão nos mostra o relacionamento entre o exímio assaltante de bancos Jack Foley (George Clooney) e a agente federal Karen Sisco (Jennifer Lopez). Eles se conhecem num porta-malas de um carro, após ele fugir de uma prisão e levá-la como refém. Apesar do inusitado da situação, a conversa se dá num clima de casualidade e sensualidade que irá nortear a busca dos personagens um pelo outro ao longo da trama. A personagem de Lopez é uma clara homenagem à série de TV The Cisco Kid.

A direção dos atores é um dos méritos do filme. Mesmo antes de fazer Julia Roberts digna de um Oscar, ele leva George Clooney (ainda de ressaca de Batman e Robin) ao timing perfeito de um galã com refinado senso de humor, papel aliás que o próprio Clooney não se envergonha de repetir. Já Jennifer Lopez alcança uma performance convincente, a última antes de filmes desprezíveis como Olhar de Anjo.

Além disso, todo seu elenco - que conta inclusive com pequenos papéis de Samuel L. Jackson e Michael Keaton - funciona sem distorções, facilitados pelo roteiro enxuto de Scott Frank (indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Adaptado). Em uma cena, o personagem de Don Cheadle relata: "Um dos meus capangas foi procurar por Glenn no banheiro, mas voltou abanando a cabeça". Essas sutilezas causam a impressão de que cada ator "veste" na medida certa o seu personagem.

Soderbergh antecipa neste filme muitas das suar marcas que ficariam evidentes nos seus maiores sucessos. A fotografia estourada para diferenciar os ambientes, a elegância do silêncio como algo instigante e ao mesmo tempo revelador e o tom quase explícito de camaradagem das filmagens são explícitos pela primeira vez aqui.

Como destaque e resumo disso, a sensacional cena em que Clooney e Lopez se encontram num hall de hotel. A montagem indicada ao Oscar de Anne V. Coates funciona para antecipar aquilo que julgamos inevitável, sem estragar, entretanto, a sedução da cena. Outro ponto forte são algumas cenas nas quais a imagem se congela num frame, como se Soderbergh tentasse extender seus momentos favoritos ao máximo.

Não sei porque me lembro perfeitamente do trailer deste filme e o quanto ele não me agradou. Parecia mais uma comédia romântica forçada e me recusei durante um bom tempo a vê-lo, apesar de Sodebergh. Hoje, o arrependimento de não tê-lo visto nos cinemas só não é maior do que a satisfação de revê-lo em DVD.

29 Julho, 2005

"Se Brincar o Bicho Morde"

The Sandlot, de David M. Evans
(EUA, 1993)


por Café

Talvez, se eu não estivesse com insônia, nem parasse para assistir a Se Brincar o Bicho Morde. Talvez tenha influenciado o fato de o filme falar sobre beisebol, esporte tão rejeitado por aqui e que eu aprendo cada vez mais a admirar. Ou talvez tenha sido por falar de uma turma de garotos e se passar na década de 60. Filmes sobre jovens dos anos 60 costumam cativar facilmente, seja pela caprichada trilha sonora ou pelo clima aparente de felicidade de uma época nostálgica.

O filme trata de um verão mágico na infância de uma turma de garotos. Após a chegada do 9º componente da turma, finalmente o time de beisebol está completo. Além de se divertirem num campinho improvisado num terreno baldio, eles usufruem a inocência e inconseqüência típica da idade, exemplificado na simples felicidade de poder jogar á noite no 4 de Julho, quando o campo está iluminado pelos fogos de artifício. A cena em que um deles simula um afogamento para receber uma respiração boca-a-boca da bela salva-vidas nos remete às táticas usadas ou apenas planejadas para fazermo-nos notar pelas musas da nossa infância.

É verdade que boa parte da trama não tem muitos atrativos. A amizade dos garotos se resume a seu próprio grupo. Não há um interesse maior por vizinhas, e as rixas com garotos vizinhos se resumem a um jogo onde o adversário é facilmente derrotado. Contudo, este cotidiano só faz crescer a amizade do grupo e mostrar que desde cedo aquele verão será único.

A situação muda quando uma bola vai parar no quintal da casa vizinha ao campo. O problema é que a bola é autografada por Bambino, o maior jogador de todos os tempos, e foi indevidamente tirada da coleção do padrasto de um deles. Além disso, no quintal da casa há uma fera que segundo se conta, teria devorado um menino por inteiro. As cenas com a suposta fera são muito bem feitas e acaba por determinar o futuro no esporte de um deles.

Filmes como este, singelos na sua proposta, talvez nos seja especial pelo fato de lembrar-nos dos nossos momentos inesquecíveis. Aqueles que se contados hoje parecem tolos e desinteressates, mas que guardam uma parte importante de cada um de nós.

Como curiosidade, a presença na direção de fotografia de Anthony B. Richmond, renomado cinegrafista, cujos trabalhos anteriores incluem o documentário musical Let it Be dos Beatles e uma parceria com Godard no também documentário Sympathy for the Devil (também conhecido como One Plus One) .